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Sucesso de um crowdfunding jornalístico: uma lição do México

Sucesso de um crowdfunding jornalístico: uma lição do México

Jordy Meléndez | 23/07/17
An image used by Lado B to market their campaign

Este é o segundo artigo de uma série da SembraMedia sobre como sites de notícias independentes podem alcançar estabilidade financeira. Veja a primeira parte aqui.

Lado B é uma organização de mídia local que se concentra principalmente em reportar e investigar questões políticas, econômicas e sociais do estado de Puebla no México. Foi criada em 2011 e é dirigida por Ernesto Aroche e Mely Arellano, que supervisionam uma equipe de seis editores e repórteres, todas mulheres.

Segundo Aroche, a ideia de executar uma campanha de crowdfunding era algo que estavam considerando há algum tempo, mas nunca pararam para pensar completamente.

"Desde 2014, ficou claro para nós que precisávamos diversificar nossas fontes de renda", ele explicou. "Nós pensamos em realizar oficinas, vender conteúdo, publicidade comercial e, claro, alguma forma de angariação de fundos coletiva."

Em 2015, eles realizaram um experimento de mini-crowdfunding muito específico que serviu de experiência de aprendizado. "Pedimos MXN10 milhões (cerca de US$460) para obter o arquivo de um político através de um pedido de liberdade de informação", disse Aroche. "A campanha só durou uma semana, mas foi muito bem. Recebemos os recursos, o arquivo e contamos uma boa história [sobre a violação dos direitos eleitorais pelo político]."

Em meados de 2016, a equipe do Lado B decidiu explorar crowdfunding como a principal maneira de diversificar sua renda. Dois motivos foram fundamentais nesta decisão.

"Em primeiro lugar, tivemos um amigo, Héctor Ranauro, que começou a nos dar muitas ideias sobre como conseguir recursos e nos deu a ideia de uma campanha", disse Aroche. "Em segundo lugar, a Fondeadora [uma plataforma digital para crowdfunding] nos contatou diretamente. Eles nos disseram que completaram uma avaliação do projeto em Puebla e que viram muitas possibilidades para nós. Se decidíssemos lançar uma campanha com eles, eles nos apoiariam no gerenciamento de plataformas e nos forneceriam conselhos oportunos. Diante desse cenário, decidimos lançar [a campanha]."

O Lado B estabeleceu um objetivo simples para a campanha, que eles chamaram de "Queremos mais: MXN80.000" (US$3.650).

"Queríamos um objetivo que todos considerassem possível", disse o diretor. "MXN50.000 parecia pouco demais para nós. Mas ultrapassar MXN100.000 nos deixou um pouco nervosos."

Nenhum objetivo foi definido para o número de doadores. No final da campanha, que durou 30 dias, eles arrecadaram MXN110.000 (US$5.000) de 195 doadores.

"O valor arrecadado representa 17 por cento do orçamento de 2017", disse Aroche. Do total do dinheiro arrecadado, 10 por cento será destinado à compra de equipamentos, 60 por cento será destinado a melhorar as condições de nossos repórteres e 30 por cento será dedicado a cobertura e pesquisa.

A campanha teve componentes online e offline que conseguiram funcionar bem em termos de tempo e forma. O Lado B fez um vídeo sobre a organização e uma série de memes que foram amplamente compartilhados nas mídias sociais. Foi uma campanha de base, autodesenvolvida, realizada pela equipe Lado B. O principal coordenador foi a editora-chefe Arellano, que não se aliou com nenhuma agência criativa externa.

Além da campanha online, o Lado B organizou um jantar de angariação de fundos, com a participação de 60 pessoas pagando MXN1.000 (US$48) pela entrada.

"Criamos uma lista de 130 pessoas que achamos que teriam tanto interesse quanto recursos financeiros para participar", disse Aroche. "No final, o espaço do jantar foi pequeno demais para nós. O limite de atendimento nos foi imposto pelo espaço que tivemos para realizar o jantar. Como incentivo, convidamos Daniel Lizárraga, um amigo jornalista do Lado B, para que os participantes pudessem conversar com ele sobre a investigação [do escândalo da Casa Branca] do presidente mexicano Enrique Nieto."

Mas no jornalismo, nem tudo é pesquisa, verificação e reportagens

"Nós também tivemos uma festa", disse Aroche. "Conseguimos algumas caixas de cerveja doadas e nos emprestaram um espaço. Foi um sucesso, com base em nossa definição/proporções. Mais de 100 pessoas participaram da festa. O custo foi de MXN30 (menos de US$2) por pessoa. O álcool foi vendido separadamente, e foi o que o Lado B tirou. No final, foi MXN6 milhões (US$290)."

A equipe do Lado B também foi para universidades e centros de estudo para conversar com estudantes e professores. Eles até contemplaram fazer uma coleta de rua, "mas não fizemos porque achamos que não era mais necessário", disse Aroche. Apesar da orientação da Fondeadora, eles tiveram alguns problemas técnicos com a plataforma, então abriram algumas contas bancárias para receber doações diretas.

Que lições o Lado B aprendeu?

Em primeiro lugar, "sentimos que faltava planejamento", disse Aroche. "Por exemplo, nunca pensamos em como íamos dividir a campanha semana a semana, em termos de produtos ou mensagens para usar. No início, só tivemos um vídeo, que depois de assistir uma vez, perde o seu significado/impacto. Felizmente, fizemos uma aliança com o cartunista Ángel Chanes, que nos ajudou com memes, cartazes e quadrinhos durante a campanha. "No final, três cartunistas de Puebla doaram seu trabalho para a campanha, que será dada como recompensas aos doadores que contribuíram com mais de MXN3.000 (US$140).

"Em segundo lugar, vimos que as pessoas que doaram são pessoas que nos conhecem diretamente", acrescenta Aroche. "Apenas 10 por cento dos doadores não estão em nosso próximo círculo. Isso significa que no próximo ano temos que planejar uma campanha muito mais ambiciosa, aberta e estratégica para alcançar mais pessoas."

A doação média foi de MXN500 (US$23) e 20 por cento dos doadores a fizeram sem pedir nenhum tipo de recompensa. Cencos, um centro de pesquisa e promotor de direitos humanos, contribuiu com MXN10.000 (US$460) como patrocinador institucional.

Segundo Aroche, no próximo ano, o Lado B pretende aumentar pelo menos 50 ou 60 por cento do que recebeu em 2016.

"Nossa maior ambição é reduzir gradualmente as receitas publicitárias provenientes de uma universidade pública, porque, em última análise, é publicidade oficial", explica o diretor. Eles estão no caminho certo.

Este artigo foi traduzido e republicado com permissão (veja o original em espanhol aqui). Faz parte de uma série sobre a criação de jornalismo financeiramente viável pela SembraMedia, uma organização dedicada a melhorar a qualidade do conteúdo de notícias disponível em espanhol. 

A fundadora e diretora executiva da SembraMedia é a Janine Warner, bolsista Knight do ICFJ, uma especialista em ajudar empreendedores de mídia digital a implementar práticas de negócios sustentáveis ​​e gerar novas fontes de receita on-line. Saiba mais sobre seu trabalho como bolsista Knight do ICFJ aqui.

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