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Lições de jornalista nigeriano para humanizar reportagens sobre conflito

Lições de jornalista nigeriano para humanizar reportagens sobre conflito

Taylor Mulcahey | 22/07/18

Para o jornalista e escritor nigeriano Abubakar Ibrahim, o jornalismo não significa apenas compartilhar fatos, mas também inspirar uma mudança, que ele acha que funciona melhor quando você coloca um rosto juntamente aos números frequentemente reportados nas notícias.

Quando Ibrahim ouviu falar sobre os campos de deslocados internos (IDP, em inglês) no norte da Nigéria, ele não queria apenas informar sobre os números; queria contar suas histórias.

"Quando você os vê como seres humanos e sente de alguma forma a vida que eles têm, isso dá mais contexto", disse Ibrahim. “Isso te dá mais informações, faz você sentir algo e querer fazer alguma coisa.”

Ibrahim passou um tempo nos campos de deslocados internos em Maiduguri, trabalhando na história que lhe valeria o Prêmio Michael Elliott de 2018 em Excelência em Reportagem Africana do Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ), em parceria com a ONE e a família Elliott. Nomeado em homenagem ao falecido Michael Elliott, um editor, filantropo e defensor do poder de contar histórias, o prêmio reconhece um promissor jornalista africano com experiência em contar histórias importantes.

A matéria de Ibrahim, "All That Was Familiar", foi publicada na revista Granta em maio de 2017. Nela, Ibrahim conta as histórias de duas mulheres, uma nigeriana, Sa'adatu Musa, e uma camaronesa, Zahra Mohammed, que escaparam do terror do Boko Haram. Tecida através de suas narrativas é uma história maior de mais de dois milhões de pessoas que fugiram da violência do grupo militante no nordeste da Nigéria, norte dos Camarões e sul do Níger.

Em uma recepção em Nova York em maio, Ibrahim aceitou o prêmio e passou uma semana nos Estados Unidos em uma excursão intensiva, visitando redações e organizações de mídia para ter a chance de aprender novas habilidades e compartilhar conhecimentos. Este é o segundo ano do prêmio, o primeiro reconheceu a jornalista de rádio queniana Mercy Juma.

A IJNet falou com Ibrahim sobre seu trabalho, o prêmio e o poder de humanizar uma reportagem complicada.

IJNet: Conceitos como terrorismo ou pessoas deslocadas internamente são complexos. Se alguém estivesse interessado em seguir seu conselho e humanizar esses conceitos, como deveria começar?

Ibrahim: Você tem que entender o que está tentando fazer em primeiro lugar e o seu valor. Também tem que entender que não é sobre você, é sobre outras pessoas. É sobre a humanidade.

Você também precisa entender o risco que tem que correr. Se não mora no local, precisa ir até lá. E na maioria das vezes são lugares muito desconfortáveis ​​para se estar, então você tem que se perguntar: "Será que esse sacrifício valerá a pena? Posso justificar fazer o sacrifício?"

Quais desafios específicos você encontra ao trabalhar em um projeto como "All That Was Familiar"?

Você não vai trabalhar em situações ideais, então vai se expor a grandes riscos. Esses riscos podem ser de qualquer lugar. Às vezes, as pessoas sobre as quais você está tentando escrever podem não entender o que você está tentando fazer, então você tem que ser capaz de convencê-las, [dizendo] “estas são as razões pelas quais eu acho que isso será útil ou benéfico."

Também precisa estar ciente de que há pessoas que tentarão mantê-lo longe das histórias por motivos de segurança -- entre aspas. Elas podem não querer dar acesso a essas pessoas, então serão um obstáculo. Você tem que ser inovador e adaptável para encontrar maneiras de chegar à matéria.

Ao mesmo tempo, tem que ser equilibrado, o que é muito importante, porque às vezes ficamos muito entusiasmados com as histórias e queremos escrever tudo. Mas nós não somos influenciadores de mídia social ou blogueiros. É empolgante publicar coisas nas redes sociais e compartilhar o que está acontecendo, mas é preciso considerar as informações que você está divulgando e se são benéficas ou prejudiciais. Eu acho que a responsabilidade social é importante no jornalismo, especialmente nos países em desenvolvimento.

Que outro conselho você tem?

Tem que estar preparado para cuidar de si mesmo, tanto fisicamente quanto emocionalmente, porque estará exposto a imagens perturbadoras, histórias perturbadoras e pessoas que sofreram muito. Isso tem um jeito de entrar no seu sistema e entrar no modo como você pensa, então você deve estar preparado e saber quando recuar.

Como esse prêmio vai impactar seu trabalho daqui para frente?

Como eu mencionei, eu tive a ideia [mas] tenho que ter tempo para processar tudo o que aprendi e ver o que é viável. Estou ansioso para começar algo que não será sustentável, uma das coisas que aprendi aqui. Eu vou voltar para casa e processar tudo isso. Já fiz muitos contatos fantásticos e vamos continuar se falando.

Esta entrevista foi editada e resumida.

A imagem principal é de uma viagem de reportagem ao um campo de deslocados internos em Maiduguri, Nigéria, cortesia de Fati Abubakar. A segunda imagem é de uma viagem de estudos nos EUA, cortesia de Abubakar Ibrahim.

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