Pesquisador explica como as mídias sociais são usadas pelo movimento antivacina

parMarina Monzillo
17 sept 2020 dans Reportagem sobre COVID-19
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Em parceria com a nossa organização-matriz, o Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês), a IJNet está conectando jornalistas com especialistas em saúde e líderes de redação por meio de uma série de seminários online sobre COVID-19. A série faz parte do Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde do ICFJ.

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O movimento antivacinação é motivado por interesses múltiplos, não conta com uma coesão ou coordenação e, mesmo assim, tem ganhado relevância a ponto de contribuir para o retorno de doenças antes erradicadas, como o sarampo. 

Esse panorama foi apresentado no webinar “Movimento antivacina, desinformação e pseudociência", realizado em 16 de setembro. pelo Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde. O convidado foi Gregório Fonseca, pesquisador da UFMG que estuda esse tipo de desinformação científica disseminada nas mídias sociais, especificamente no YouTube e no Facebook. 

Fonseca comparou o período que antecedeu a pandemia de COVID-19 e agora, quando se vive a expectativa grande por uma solução imunológica à doença. “O assunto vacina não fazia parte do dia a dia das pessoas. Com a COVID-19, virou tema de interesse de todo mundo. Assim, o conteúdo antivacina aumentou e se transformou”, disse. 

Em seu monitoramento das redes, Fonseca enxergou a descentralização: o discurso tem tanto o viés da pseudociência como argumentos religiosos, ideológicos e até conspiratórios. Por isso, usa com ressalvas o termo “movimento” para reunir todos os grupos. “O importante é entender que é um posicionamento grande o suficiente para atrapalhar [o progresso na saúde]”, opina. 

 

Veja a seguir os principais pontos da conversa:

O movimento antivacina e as mídias sociais

Não há identificação de canais no YouTube especificamente voltados à condenação das vacinas, entretanto, Fonseca aponta que esse tipo de discurso está presente em canais que falam de assuntos religiosos, teorias da conspiração e curas naturais, por exemplo. No Facebook, ganha caráter de tema principal em grupos que possuem por volta de 10 mil de seguidores cada. 

Os vídeos dificilmente aparecem nas buscas do YouTube, mesmo assim, costumam ter um número alto de visualizações. A plataforma possui uma política de inibir a exibição do que considera desinformação. “Os links são divulgados no Facebook e, mesmo sem a existência de dados que comprovem, supõe-se que pelo WhatsApp também. A integração das plataformas é feita pelos próprios usuários”, explicou o pesquisador.

Não é difícil identificar quem são os influenciadores antivacina. As pessoas se mostram em longos vídeos e, nos grupos organizados, os que publicam se repetem, sempre utilizando contas reais e abertas. “As figuras estão aí, mas a questão é: o que a legislação pode fazer com elas?”, questionou Fonseca. 

Ele enxerga um paralelo entre esses grupos e o movimento antivacina norte-americano. Vídeos e documentos originais em inglês são legendados ou traduzidos para postagens, mas na percepção do pesquisador, o fator conspiratório nos Estados Unidos é mais forte. “Lá, acreditam mais que é possível colocar um microchip na vacina. Aqui, temem-se mais os efeitos ruins à saúde.”

No contexto da pandemia

A quantidade de conteúdo aumentou e os motivos alegados para se condenar as vacinas seguem os mesmos, mas foram associados agora à COVID-19. A novidade foi o surgimento do preconceito contra a vacina chinesa. “Vemos as pessoas se opondo à vacina da COVID-19 antes mesmo de ela existir. Dizer que não tomaria uma vacina antes de se provar a segurança é uma postura científica. Mas, depois de todos os testes e aprovações, não querer tomar por razões xenofóbicas, é uma postura indefensável”, disse Fonseca.

O pesquisador considerou “problemática e inconsequente” a declaração do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, de que ninguém é obrigado a tomar vacina. A defesa da liberdade individual é um argumento muito usado pelos grupos antivacina. “Ele deu munição.


Marina Monzillo é jornalista freelancer com 20 anos de experiência em diversas áreas, como cultura, turismo, saúde, educação e negócios.

Imagem sob licença CC no Unsplash por Benjamin Sow