Aprendizados da pandemia: boas políticas públicas envolvem comunicação efetiva e inteligência epidemiológica

porMarina Monzillo
Dec 7, 2020 en Reportagem sobre COVID-19
Presidente da República jair Bolsonaro, durante o encontro “Brasil Vencendo a COVID-19”.

Com todo o conhecimento que a ciência acumulou desde o início da pandemia de COVID-19, há nove meses, não dá para dizer que não há ideia do que se fazer para segurar a segunda onda de contágio. Por isso, a professora de administração pública da FGV Gabriela Lotta e o doutor em engenharia biomédica pela USP Vitor Mori elaboraram voluntariamente uma lista com os principais pontos de aprendizados desde março e como podem ser aplicados nas políticas públicas de enfrentamento da doença. 

Os dois compartilharam esse levantamento no webinar “Aprendizados da pandemia para nortear políticas públicas”, realizado pelo Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde” em 3 de dezembro. “Não são coisas difíceis de serem feitas”, ressaltou Lotta. 

 

 

Veja a seguir os principais pontos da conversa.

Sem aprendizados

  • Mori explicou que, no atual repique de contágio, não estamos aproveitando os aprendizados para evitar os erros da primeira fase. “O que mais me preocupa é que estamos tratando a pandemia e a COVID-19 com os mesmos princípios de quando sabíamos muito pouco e tínhamos mais suposições e especulações. As diretrizes não mudaram, a forma como a gente compreende a doença parece que não mudou, a minha sensação é que estamos presos em março e abril ainda. Você não controla a transmissão da doença se não entende como ela ocorre”, comentou.

  • Ele lembrou que o risco é maior em lugares fechados do que em abertos. “Quando a gente fala de medidas de contenção da pandemia, a gente fala em só fechar e restringir. Não trabalhamos o meio termo. Temos de lembrar que temos meses de pandemia, uma quarentena arrastada, cansativa que nunca foi totalmente efetiva. A população está com uma fadiga enorme, dificilmente vamos voltar ao grau de isolamento de março”, disse. Segundo ele, temos de oferecer opções seguras ou a proibição vai fazer as pessoas buscarem alternativas, muitas vezes, em lugares menos seguros, com menos controle. 

Sem respostas do governo

  • Para Lotta, é muito claro como o governo não está escutando a ciência. Muitas vezes as decisões são na contramão daquilo que é comprovado e são as recomendações internacionais. “Um exemplo aconteceu esta semana, quando tivemos a volta para a fase amarela em São Paulo; uma das medidas foi reduzir o horário de alguns serviços, como academias, o que gera mais aglomeração, e pior, sinalizar a restrição a parques, em um momento que sabemos que a academia tem muito mais risco de transmissão do que parques.” 

  • Ela analisou que governos assumiram protagonismo no mundo inteiro e, no Brasil, uns assumem, outros não. “Vimos políticas públicas contraditórias e conflituosas, e isso cria um problema de capacidade de implementação, os atores não sabem qual das ordens responder”. Ela citou municípios que fizeram um bom trabalho, como Niterói (RJ) e  Diadema (SP).  “As boas políticas públicas pensam na lógica na prevenção, no tratamento dos doentes, e também em outras ações que não são relativas à doença e saúde, mas influenciam, como o cuidado com as populações mais vulneráveis. Se não temos um resguardo da assistência social, esses grupos vão continuar circulando e se expondo, aumentando a capacidade de contágio.”

  • Mori trouxe os bons exemplos internacionais, como a Coreia do Sul e o Japão. “Muito do sucesso deles no controle da pandemia veio do começo, quando identificaram a rota mais prevalente da transmissão, pelo ar, e trabalharam em cima dela. A gente até hoje está preso em lavar compras, limpar superfície e medir temperatura. Aí, entra em um restaurante fechado, onde todo mundo está sem máscara e falando alto. Óbvio que isso não vai dar certo, porque estamos assumindo que a maior transmissão é por superfície e não é”, falou. 

Inteligência epidemiológica

  • O que se sabe é que a COVID-19 é uma doença que se espalha de forma heterogênea, 20% infectados são responsáveis por 80% dos novos casos. Essa transmissão acontece geralmente em espaço fechado, mal ventilado, com pessoas sem máscara e falando alto. “Se a gente entender como esses casos de superespalhamento acontecem, consegue fazer fechamentos mais controlados.” 

  • De acordo com Lotta, o que há é tentativa e erro, e o governo fica vendido às forças que pressionam o que deve abrir e quando. “Não se tem um trabalho de inteligência epidemiológica que está olhando para esses espaços mais espalhadores e atacando, com força, porque não se tem uma inteligência para justificar essa força. A política fica vendida. Tem muito mais lobby para manter bares e shoppings abertos do que parques abertos.”

  • Na pandemia, as ações de enfrentamento exigem ação coletiva. “O coletivo precisa atuar, pessoas não podem ser deixadas a tomar decisões individuais, qualquer emergência existe isso”, disse Lotta. “Não estamos fazendo boas políticas de convencimento e também de forçar as medidas de adesão. Não adianta falarem para não fazer isso ou aquilo se não for acompanhado de multa e fiscalização. Fica cada um por si. E uma doença que se espalha coletivamente, não tem enfrentamento individual que resolva.” 

A importância da comunicação

  • Mori ressaltou que os materiais publicitários das prefeituras são sempre focados no ato de lavar as mãos e, no máximo, de usar máscara, mas de forma abstrata, sem informação de como fazê-lo corretamente. “Mesmo quem está tentando informar, está passando uma mensagem defasada”.  Ele acredita que é muito mais difícil mudar um conceito estabelecido do que introduzir um conceito novo. Fica mais desafiador convencer agora as pessoas que a ventilação é mais importante do que lavar as mãos. “O foco deveria ser comunicar a importância de abrir janela, ventilar o espaço, priorizar para espaços abertos.”

  • Para ele, a prioridade é reconhecer a relevância da transmissão pelo ar, comunicar bem isso e fazer políticas que incentivem as pessoas a fazerem atividades ao ar livre e ventilar bem os espaços. Lotta completou: “Os governos precisam assumir a responsabilidade, a gente precisa de política, de decisão baseada em evidências. Temos conhecimento acumulado, redes inteiras dispostas a ajudar os governos voluntariamente, precisam escutar o que a ciência já produziu e tomar decisões assertivas.”


Marina Monzillo é jornalista freelancer com 20 anos de experiência em diversas áreas, como cultura, turismo, saúde, educação e negócios.

Imagem do encontro “Brasil Vencendo a COVID-19” sob licença CC no Flickr por Marcos Corrêa/PR, Palácio do Planalto