Dicas, técnicas e ferramentas para jornalismo investigativo

porRodrigo de Assis
Aug 20, 2020 en Reportagem sobre COVID-19
rede de pistas penduradas na parede

Em parceria com a nossa organização-matriz, o Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês), a IJNet está conectando jornalistas com especialistas em saúde e líderes de redação por meio de uma série de seminários online sobre COVID-19. A série faz parte do Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde do ICFJ.

Este artigo é parte de nossa cobertura online sobre COVID-19. Para ver mais recursos, clique aqui.

Muito do que se encontra na internet “pode nos levar a conclusões falsas, por isso é fundamental manter o ceticismo e checar informações”, conta o convidado do 11º webinar do Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde, realizado no dia 19 de agosto. O tema foi "Dicas, técnicas e ferramentas para jornalismo investigativo", com Eduardo Goulart de Andrade, colaborador do site The Intercept Brasil e criador da página De Olho Nos Dados, boletim para jornalistas especializado em Open Source Intelligence (OSINT). Alexandre Orrico conduziu a conversa que jogou luz ao trabalho de apuração investigativa e inteligência de dados abertos.

Em exemplos de pautas que desenvolveu no contexto da pandemia, Andrade mostrou técnicas que utiliza para coletar, analisar e apresentar informações públicas, pensando no OSINT “como um quebra-cabeça que só ganha sentido quando a gente consegue encaixar suas peças”.

 

Investigando pessoas

Para descobrir o nome do sujeito que derrubou cruzes na instalação da ONG Rio de Paz, começou criando um filtro no TweetDeck, plataforma do Twitter para auxiliar na visualização de informações e monitoramento.

Na busca avançada, Andrade colocou: cruzes AND “rio * paz”. O jornalista explica que escolheu duas palavras-chave, usou o “AND”, como operador para a soma dos termos e o asterisco que funciona como palavra coringa. 

Com essa combinação, Andrade encontrou um texto que revelava informações do sujeito, como nome, profissão e bairro de residência. A nova etapa foi checar as informações, escrevendo no campo de pesquisa do Google o nome do investigado entre aspas, mais site:gov.br, que possibilita restringir a pesquisa apenas para um tipo de domínio -- neste caso, em sites governamentais, reduzindo os resultados indexados de 256.000 para 48.

O próximo passo é saber se ele é sócio de alguma empresa, diz Andrade, que usou a plataforma Brasil IO para acessar dados baixados de várias outras plataformas. A funcionalidade “Sócios das Empresas Brasileiras” inclui dados da Receita Federal, mas possibilita uma pesquisa mais dinâmica que no site oficial.

Depois de encontrar uma empresa do investigado, Andrade foi no próprio site da Receita pesquisar o CNPJ em busca de informações que não aparecem no outro sistema. Assim descobriu um telefone e endereço para fazer contato.

Antes de telefonar, Andrade entrou no Microsoft Azure, que usa inteligência artificial para fazer reconhecimento facial. Então comparou a foto do perfil de Twitter do investigado com a captura de tela do rosto dele no vídeo que circulou nas redes. A ferramenta verificou em intervalo de confiança de 0.6 que as fotos pertenciam à mesma pessoa: um sinal acima da média que, mesmo não dando certeza plena, é um forte indício que se trata da mesma pessoa.

Combatendo a desinformação

O Sleeping Giants é um projeto que alerta empresas cujos anúncios no Google são veiculados em sites de desinformação. Como descobrir quem é o responsável por esses sites?

Para sites com final “.com.br”, Andrade recomenda a ferramenta Who Is, do site Registro.br, que aponta quem são os donos dos domínios. A pesquisa revela nome do titular, CPF e e-mail. Para finais “.com”, há o View DNS, referência internacional para pesquisar a infraestrutura da internet. 

Para descobrir como um texto publicado na internet está circulando nas redes sociais, Andrade sugere a extensão CrowdTangle, que pode ser baixada gratuitamente no browser Chrome. É ferramenta útil para verificar como notícias falsas circulam nas redes sociais. Por esse meio, é possível visualizar redes de desinformações.

O comportamento de contas no Twitter pode ser analisado pelo o site Social Bearing. A partir do @ de usuário, a ferramenta, que limita-se até os últimos 3200 tuítes, apresenta diversas análises, gráficos, domínios mais compartilhados, taxa de postagens por hora, etc.

Pelo código-fonte também é possível encontrar algum e-mail vinculado à página. Outras duas ferramentas que também podem auxiliar são o software Maltego e o Hunchly ― este que ajuda arquivar com o código fonte as páginas pesquisadas na internet.

'É importante seguir o dinheiro'

Andrade conta que há um dispositivo legal que permite ao poder público dispensar licitações para reduzir a burocracia e conseguir aprovar orçamentos com mais rapidez. No contexto de pandemia, a prática tem sido muito necessária para compra de equipamentos de saúde, mas abre brecha para pessoas mal-intencionadas que se aproveitam dessa falta de controle do Estado para fazer obras superfaturadas, cobrar muito mais caro por insumos e mais. 

Para investigar uma empresa, Andrade fez a pesquisa do nome mais: AND “auditoria” site:prefeitura.sp.gov.br. Assim conseguiu restringir consideravelmente os resultados e descobrir as licitações da empresa com a prefeitura de São Paulo e o que a Controladoria Geral do município encontrou.

Outra dica útil para investigar contratos com o governo federal é o Portal de Compras, onde é possível fazer buscas inteligentes com recortes temporais, segundo Andrade.. Uma sugestão é baixar os dados em CSV e importar no Excel para ter melhor visibilidade. No Portal da Transparência, também é possível verificar o histórico de contratos de uma empresa com o governo.

Para verificar empresas estrangeiras, Andrade recomenda usar o repositório de dados OpenCorporates e o Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP); ou a Red Palta, um projeto que compara o preço de insumos em países da América Latina.


Rodrigo de Assis é jornalista residente em São Paulo, com formação na Faculdade Cásper Líbero. Pesquisa a história cultural da cidade e escreve poesia. Medium: @rqohen

Imagem sob licença CC no Unsplash por Volodymyr Hryshchenko