A terceira onda de COVID-19 em países lusófonos da África

por Jade Drummond
Jul 13, 2021 en Reportagem sobre COVID-19
Arte mapa África e Covid19

O continente africano registrou um rápido crescimento no número de casos ativos de Covid-19 no último mês e enfrenta agora a terceira onda de contaminação. Entre os principais motivos do novo pico da doença estão a dificuldade no processo de vacinação e a retomada das atividades econômicas.

 

Para entender como países africanos lusófonos (Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe) estão combatendo a COVID-19, o Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde convidou Inês Fronteira, doutora em saúde internacional e professora auxiliar no Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade NOVA de Lisboa, para o webinar “A terceira onda de COVID-19 em países lusófonos da África”, realizado em 9 de julho. 

 

Fronteira colaborou com um estudo publicado em novembro de 2020 sobre o enfrentamento da COVID-19 nos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Na conversa, compartilhou os principais achados da pesquisa e informações que ajudam a entender o cenário atual. Veja os principais destaques:

 

  • Além da língua portuguesa: os países africanos lusófonos compartilham questões em comum que vão além da língua e podem ajudar a analisar o impacto da pandemia nesses territórios. Existem alguns aspectos históricos similares, como a formação do Estado, a raiz do direito e a organização dos sistemas de saúde. 

 

  • Homogeneidade nas medidas implementadas: de forma geral, as medidas de combate à pandemia na região foram similares, seguindo as orientações da Organização Mundial da Saúde e do Centro Africano de Controle e Prevenção de Doenças. Os tempos de implementação dessas medidas, entretanto, foram distintos. 

 

  • Em 2020, o impacto parecia menor nesses países: até agosto do ano passado, os dados de mortalidade e internação por Covid-19 nos países africanos lusófonos mostravam um cenário relativamente menos grave do que em outras regiões do mundo. 

 

  • A doença da desigualdade: um aspecto já observado sobre a doença, de forma geral, é o impacto da desigualdade socioeconômica na quantidade de casos e óbitos. Nos países em questão, a Covid-19 também afetou mais os mais pobres. 

 

  • Padrão urbano: as zonas urbanas com grande concentração populacional, como o caso de Luanda, capital da Angola, têm números mais altos de contaminação do vírus. A doença se propagou também nas zonas rurais, mas sem a mesma intensidade dos grandes centros.

 

  • Impacto da economia informal: em maior ou menor grau, existe uma preponderância dos negócios de rua e da economia informal nesses países. Com isso, o retorno às atividades potencializou a transmissão do vírus e aumento dos casos. 

 

  • Relutância à vacinação: assim como em outras regiões do mundo, esses países enfrentam dificuldade no processo de vacinação por causa de pessoas que recusam os imunizantes. A falta de confiança vem de informações falsas que circulam sobre a segurança e necessidade da vacina. 

 

  • Safári científico: na Guiné-Bissau, por exemplo, foi transmitida a ideia de que as vacinas estavam sendo testadas na população. O receio vem do histórico de “safári científico", prática de pesquisadores estrangeiros que testam medicamentos e produtos na região sem dar retorno à população. 

 

  • Saúde pública de precisão: além da necessidade de obter uma maior quantidade de vacinas, os países precisam garantir a aceitação da população. No caso, agentes locais, que conhecem a sociedade e os motivos da não aderência à vacinação, são essenciais para garantir uma saúde pública de precisão. 

 

  • Vacinação prioritária: enquanto os imunizantes não são suficientes para proteger a maior parte da população, os países africanos lusófonos têm grupos-alvo prioritários muito bem definidos e identificados. Cabo Verde vacinou recentemente 60% da força de trabalho de saúde. 

 

  • Dados imprecisos: é provável que o número de contaminados e óbitos da região não seja 100% correto. Porém, isso não compromete comparações sobre o desenvolvimento da pandemia ao redor do mundo, pois a imprecisão desses dados é esperada por pesquisadores em qualquer país. 

 

  • Dificuldade da vigilância epidemiológica: a facilidade de acesso a informações de saúde, com o uso da internet, pode ter diminuído a quantidade de pessoas com sintomas leves que procuraram atendimento médico e tiveram as suspeitas registradas no sistema de saúde. 

 

  • Medicamentos: um dos países que tentou utilizar tratamentos alternativos para a Covid-19 em 2020 foi a Guiné-Bissau, que comprou e distribuiu chá de Madagáscar para a população. 

 

Foto: Erik Mclean no Unsplash