Máscaras contra a COVID-19: verdades e mentiras

byRodrigo de Assis
Aug 28, 2020 in Reportagem sobre COVID-19
Máscaras caseiras penduradas

Em parceria com a nossa organização-matriz, o Centro Internacional para Jornalistas (ICFJ, em inglês), a IJNet está conectando jornalistas com especialistas em saúde e líderes de redação por meio de uma série de seminários online sobre COVID-19. A série faz parte do Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde do ICFJ.

É importante estar atento ao momento em que uma informação sobre a COVID-19 foi veiculada, afinal “as verdades têm mudado com uma velocidade muito grande neste cenário atual”, conta a Dra. Raquel Stucchi, professora da Unicamp, consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia e convidada do webinar realizado no dia 27 de agosto pelo Fórum de Reportagem sobre a Crise Global de Saúde.

“A função da máscara é servir como um escudo”, diz a médica infectologista sobre o tema da conversa, “Máscaras contra a COVID-19: verdades e mentiras”.

 

 

Veja a seguir as principais declarações de Dra. Stucchi:

Gotícula e aerossol

  • “Sabemos que a principal via de transmissão do novo coronavírus é entrando em contato com gotículas que foram expelidas por alguém”, a partir do momento que fala, tosse, espirra e transmitido através da inalação e contato com gotículas ou aerossol.
  • Mais de 90% da transmissão se dá através das gotículas, “partículas maiores que não conseguem alcançar uma grande distância, não chegam a mais de 1,5m”. Por causa do peso, caem e permanecem depositadas em alguma superfície.
  • Uma pessoa elimina pequena quantidade de aerossol, mas se estiver em ambiente fechado, com muita gente infectada, esse “vaporzinho com os vírus” pode ficar no ambiente. 
  • Os aerossóis “são partículas bem menores, que alcançam distâncias maiores, e podem não cair”, pois são leves e permanecem suspensos no ar. São mais frequentes durante algum procedimento médico com alto risco do paciente eliminar aerossol, como na coleta do exame com cotonete, ou na intubação, onde o médico fica muito próximo do paciente. Nestes casos, o profissional está paramentado com equipamento especial: máscara N95, protetor facial e avental. 

Qualquer máscara é melhor do que nada?

  • “A gente ainda não tinha, lá em março, uma validação de qual tipo de máscara realmente poderia dar garantia de proteção”, já que a prática mais habitual era das máscaras cirúrgicas ou a N95, já adotadas pela área da saúde. 
  • Para melhor proteção, é necessário que a trama do tecido seja mais fechada, mas “não adianta colocar uma camada dupla de jeans”, se não deixa passar o ar e a pessoa tem que manipular a máscara para respirar. 
  • “A máscara sozinha ajuda”, mas a capacidade de bloquear ou reduzir o risco de transmissão só ocorre quando “a máscara correta é usada de forma correta”, é mantido o distanciamento e a higienização das mãos. “Qualquer um desses três pilares sozinhos” não sustentam a base.

Testando a eficácia

  • “Tecidos que têm trama muito espaçada não são eficazes como barreira”. Então qual gramatura impede que essa gotícula não saia de uma pessoa e chegue na outra?
  • Um teste fácil de eficácia é colocar um fósforo aceso a cerca de 15 centímetros do rosto com máscara e assoprar. “Se a chama do fósforo mexer, a máscara não está servindo em termos de barreira.”
  • Além do teste do sopro e de ser respirável, deve-se verificar se o tamanho está adequado ao rosto. A máscara deve sempre cobrir metade do nariz, até embaixo do queixo e até dois dedos de proximidade do lóbulo da orelha.

Qual a máscara mais adequada?

  • O documento mais recente da Organização Mundial de Saúde recomenda três camadas, cuja externa seja preferencialmente de algum material que não absorva umidade (como poliéster), e duas camadas internas de algodão. O algodão na parte de dentro absorve parte da umidade expelida pela fala e aumenta o tempo de viabilidade da máscara.
  • Um estudo da revista Science Advances que traz ranking dos tipos de máscaras mais eficazes.
  • Uma máscara de algodão, em duas camadas, funciona como uma boa barreira. É recomendado colocar um filtro de papel no meio para aumentar a proteção.
  • O tecido não pode ser muito fino.  As máscaras de TNT, por exemplo, devem ser em dupla camada, com gramatura mínima de 40. No entanto, o material é considerado descartável, pois a cada lavagem, a trama vai fechando e torna a respiração mais difícil.
  • Uma bandana simples, por exemplo, é muito fina, mas pode ser dobrada em tripla camada e ter filtro de café ou papel-toalha no meio.
  • A N95 é utilizada pelo profissional de saúde colhendo exame ou por quem transita na área da UTI com pacientes entubados. Ou seja, onde há alta quantidade de dispersão de aerossol.
  • Há poucos estudos que avaliam a eficácia da N95 com ou sem válvula. A máscara com válvula talvez aumente a chance do usuário se contaminar por causa da manipulação ou dificuldade de higienização.
  • Alguns fabricantes prometem a eficácia de tecidos antivirais, seja para máscaras ou roupas. Acredita-se que a trama do tecido mais os íons de prata possa ser uma barreira eficaz, mas não garante que possam ser abandonados as outras precauções. Mesmo com esses tecidos, ainda devem ser seguidos os critérios de limpeza, umidade e distância social. A máscara úmida ou com sujeira deve sempre ser trocada.

Manutenção

  • A máscara descartável deve ir ao lixo comum. Não jogue no reciclável.
  • Para máscara reutilizável, água e sabão são suficientes para matar o vírus, não fazendo diferença se lavada no banho, pia ou máquina.
  • Não devem ser utilizados produtos como água sanitária ou cândida, pois corroem o tecido e diminuem a vida útil.
  • Podem ser lavadas junto com outras roupas, pois a lavagem com sabão em pó mata o vírus e não há risco de contaminar outras peças.
  • O principal cuidado é que a máscara esteja seca para o uso.
  • Passar a máscara pode ser útil se ainda estiver úmida e a pessoa precisar dela. No entanto, máscaras com alguma camada de tecido impermeável não devem ser passadas.

Rodrigo de Assis é jornalista, residente em São Paulo, com formação na Faculdade Cásper Líbero. Pesquisa a cultura viva e escreve poesia. Medium: @rqohen

Imagem sob licença CC no Flickr por Fiona Paton