Sugestões práticas para jornalistas cobrindo catástrofe

by Monica Saba
Feb 2, 2009 in Temas especializados

Anne Nelson, Escola de Pós-Graduação de Jornalismo da Universidade de Columbia; Dr. Daniel Nelson, M.D., Escola de Medicina da Universidade de Cincinnati Entrevistando Pessoas que Sofrem Trauma Primário.

O termo “trauma primário” se aplica a indivíduos que têm experiência de primeira mão em um evento catastrófico. Pode incluir aqueles que sobreviveram ou testemunharam uma catástrofe, assim como aqueles que perderam uma pessoa próxima. Contar sua história a jornalistas pode ser prejudicial a estes indivíduos, ou pode ser terapêutico. O jornalistas tem um papel significativo em determinar qual destes é o caso.
Um jornalista, como um médico, deve sustentar o princípio: “Primeiro, não faça mal.”
O maior fator determinante é caso a pessoa afetada esteja pronta a falar, e se sinta com algum grau de controle sob a situação.
Você deve pedir permissão. Você pode perguntar a um potencial sujeito de entrevista, “Você gostaria de me contar agora?” Se ele ou ela diz não, você deve aceitar sua resposta. Pode deixar em aberto para que ele ou ela falem com você mais tarde. Uma pessoa que não está pronta não poderá contar sua história de maneira coerente; a informação estará fragmentada.

Se a pessoa concordar em falar, dê a ele ou ela uma indicação dos parâmetros da entrevista. Isto inclui um limite de tempo. (“Eu gostaria de falar com você por alguns minutos …” ou “Eu gostaria de fazer algumas perguntas …”) Se você precisa mudar de assunto ou terminar a entrevista depois de um tempo, isto ajudará a pessoa a aceitar o fim sem se sentir abandonada. Se a pessoa está em um estado altamenteo emocional, começa a chorar, e parece acanhada, você pode pergunar se ela gostaria de mudar a entrevista para um lugar mais privado – mesmo um lobby ou portaria.

Se outros jornalistas se envolvem e você perde controle da entrevista, pense sobre jeitos de aliviar qualquer incômodo que o entrevistado esteja sofrendo como resultado. Isto pode incluir oferecer ao entrevistado a opção de terminar a entrevista. Nós estamos nas fases iniciais da criação de uma cultura jornalística que seja respeitosa destas considerações. Você não pode sempre controlar ou influenciar o comportamento de outros jornalistas – mas pode comportar-se de maneira que permita que você viva assim e serva como um exemplo.

Seu tom de voz e linguagem corporal são importantes. Uma pessoa sofrendo por um trauma reverte os papéis emocionais e cognitivos do cérebro -- as áreas emocionais ganham influência, e as áreas cognitivas (aquelas que processa informação logicamente) têm um papel diminuído. Uma pessoa traumatizada será provavelmente mais lenta ao processar língua, e pode pedir que você repita perguntas, ou, em uma entrevista detalhada, mesmo peça para escrevê-las. Ela se esquecerá de muita do que você diz, mas recorda como você diz.

Demonstre empatia, não indiferênça. Mas esforce-se para manter controle de suas emoções. Empatia não é tanto se juntar a pessoa em suas emoções, quanto apreciar e validar estas emoções. Não espere cada reação. Pessoas diferentes manifestam trauma de maneiras diferentes, variando do estóico e durão ao histérico. Não julgue a condição pela reação.

Postura física Adote uma postura que demonstre empatia. Se for uma entrevista longa, sentada, você pode pensar em se sentar ao lado da pessoa. Algumas pessoas acham que é útil não olhar diretamente no olho, mas olhar para o mesmo ponto abstrato no chão ou na parede que o entrevistado está olhando, literalmente, “para ver as coisas de sua perspectiva”. Inclinar-se ligeiramente para frente expressa abertura. Os braços cruzados e os pés cruzados podem ser interpretados como fechados ou hostís. Não se surpreenda se você sentir inábil ou incômodo. Isto é natural.

Chorando Se o entrevistado chorar, não é necessariamente uma coisa má ou prejudicial. Como indicado acima, se ele se sentir exposto ou humilhado por estar em um lugar público, tente mudar de lugar e achar privacidade. Você pode proseguir se o entrevistado estiver disposto.

Carregue lencinhos de papel em todas as vezes, e ofereça-os como um gesto de consideração. Uma razão das pessoas se sentirem envergonhadas sobre chorar é a escorrimento nasal, e lhes oferecer um lencinho de papel pode ajudar. Um toque amigável no braço é também muitas vezes bom.

Você pode querer ajudá-los com um sentido de finalidade para o momento. Pode ajudar dizendo, “ Eu sei que isto é realmente traumático de se falar, mas as pessoas precisam saber disto porque…” Tenha uma razão boa em mão a respeito do porquê as pessoas precisam saber.

Questões Evite perguntas imbecis. A primeira delas é “Como você se sente?” Psicólogos dizem que uma abordagem menos direta é melhos em algumas vezes. “O que você quer que as pessoas saibam sobre o que aconteceu?” Caminhe cuidadosamente. Não se projete. Não diga, “Eu sei como você se sente.” Você não sabe. Não diga, “Você dever ter se sentido…” Você deve ajudar a pessoa a articular sua própria narrativa, qualquer que esta seja, através de uma escuta reflexiva, para legitimá-lo. Evite respostas do tipo “deixa para lá.” Estas incluem, “Podia ter sido pior,” ou “Você é sortudo…” Respeite o silêncio. Se perguntarem, “Porque isto aconteceu?” não tente dar uma resposta direta. Uma resposta apropriada é um eco: “Sim, porque esta coisa terrível aconteceu?” Se expressarem negação, não os desafiem. A negação é um estágio legítimo e útil no processo de luto.

Terminando uma entrevista Seja simpatético. Termine a entrevista com um bom aperto de mão quando possível, com agradecimentos e palavras carinhosas, como, “Desejo tudo de bom.”

Se for uma entrevista longa, importante, considere telefonar para esta pessoa depois de uma semana ou algo assim, para dizer, “Eu queria apenas ver como você está.”

Às vezes as pessoas se sentirão violadas ou demonstrarão raiva, mesmo quando você não faz nada errado. Pode ser por causa de sua experiência em falar, não sua reação a você. Examine sua consciência. Se estiver limpa, bola para frente.