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Em jornalismo imersivo, não se esqueça da história

Em jornalismo imersivo, não se esqueça da história

Zahra Rasool, MediaShift | 05/10/17

O uso da realidade virtual (VR) no jornalismo está se tornando mais comum, e não é difícil ver o porquê. Como uma das experiências mais imersivas possíveis, a VR coloca o público dentro de uma situação em que não poderia acessar no seu dia a dia. Quando os espectadores podem caminhar por um campo de refugiados em vez de simplesmente ver em uma tela, ficam com uma consciência maior da crise global de refugiados, além de conhecerem um lado diferente da história.

Mas a realidade virtual não é apenas uma visão de 360°. Enquanto a tecnologia imersiva pode incrementar uma matéria, uma narrativa bem elaborada e poderosa ainda é essencial ao contar histórias em VR. Com a VR continuando a crescer em popularidade e uso entre jornalistas, as redação estão ficando mais acostumadas com o formato. Sua técnica significa mais do que colocar uma câmera de 360° em um ambiente único ou emocionante e simplesmente costurar as cenas. Estamos descobrindo que as reportagens de VR podem ser mais interessantes quando o foco está na ação, em vez de meramente na localização. Um cineasta ou jornalista de VR ainda deve se concentrar em criar uma narrativa poderosa no centro de uma experiência de VR.

Na realidade virtual, ainda precisamos lembrar a importância do storytelling em transmitir problemas humanos e globais urgentes.

Narrativas baseadas em personagens

Para 360° e realidade virtual, uma das melhores maneiras de ver uma história é através do sujeito principal. No Contrast VR, decidimos enquadrar nossas histórias de VR através de narrativas orientadas por personagens; ao invés de simplesmente contar a nossa audiência uma história, encontramos um personagem convincente e deixa essa pessoa nos levar ao mundo dela.

Por exemplo, focamos em Lessi Phillips, que tinha apenas 16 anos em 2008 quando um oleoduto da Shell explodiu nos riachos do Delta do Níger na cidade de Bodo, na Nigéria, despejando petróleo por 77 dias nos mangais perto de sua aldeia. Criamos a matéria para mostrar que, quando ela vai para casa, ela simultaneamente vê suas memórias de infância – caminhando por sua aldeia, com árvores frutíferas altas e um ecossistema vivo de água – justapostas com o que resta hoje: o solo com óleo que não é adequado para plantio. Em "Oil In Our Creeks", a narrativa de VR permite que Lessi compartilhe seu mundo através de seus olhos. O público experimenta a dupla visão de Lessi através de imagens de ação ao vivo capturadas no campo, bem como animações de suas memórias. Essa é a beleza da realidade virtual: conseguimos remover o intermediário e dar ao público uma conexão intimamente visual com pessoas e comunidades no centro das principais conversas globais.

Acertando o roteiro 

Em muitos documentários de realidade virtual, ainda vemos matérias que simplesmente colocam a câmera em uma configuração e registram uma foto. Então a câmera vai para outro local para gravar outra imagem. Isso leva a narrativas descontínuas sem uma verdadeira história. O que a comunidade VR deve fazer é avaliar como usar as ferramentas que já temos de documentários tradicionais ou lineares, levando em conta o que precisa ser modificado e o que precisa ser abandonado quase que completamente.

Quando comecei a trabalhar em VR, busquei implacavelmente um formato de storyboard que melhor se encaixasse no meio. Eventualmente, eu estabeleci um formato que é bastante semelhante a um roteiro tradicional, descrevendo o que nosso público vai ver e ouvir na tela. O storyboard também se tornou uma técnica para garantir que a narrativa que estamos tentando dizer pertence à realidade virtual. Se temos dificuldade em fazer uma filmagem porque o visual e a localização não são bons, então é hora de voltar ao storyboard e pensar até ter uma história que funcione verdadeiramente para o meio.

Em "I Am Rohingya", que explora a perseguição dos Rohingya em Myanmar, uma refugiada chamado Jamalida compartilha como chegou no campo de refugiados e como é o seu dia típico. Embora o processo de sequenciamento tenha sido percebido como algo mais adequado para um documentário tradicional ou linear, com Jamilda nos concentramos em suas ações em conjunto com sua localização. Em vez de criar uma filmagem de 360° que capturasse apenas o fim da hora do banho de seus filhos, sequenciamos a filmagem para que os espectadores pudessem sentir que estão participando de uma ação fluida.

Para sequenciar em 360°, temos que estar dispostos a ir contra tudo o que conhecemos como documentaristas tradicionais e organizar algumas de nossas fillmagens. Isso não envolve a mudança das ações das pessoas - em vez disso, dizemos aos nossos sujeitos que iniciem suas ações em determinado momento para que possamos controlar melhor o visual. Isto é especialmente importante para o processo de edição, pois a filmagem de 360° é muito mais difícil de manipular na pós-produção. Sem cortes e outras técnicas narrativas que são padrão em formato linear, temos que estar à vontade para quebrar algumas das regras do documentário tradicional, o que nos ajudará a criar verdadeiras experiências de VR para o público.

Usando todo os 360°

Em "Oil in Our Creeks" e "I Am Rohingya", usamos animação para adicionar uma camada adicional às imagens que nossa audiência verá no filme final. Uma vez que o visualizador tem uma visão completa de 360°, sempre nos concentramos em como usar esse espaço para fortalecer a narrativa, incentivando o espectador a se deslocar e a ver o que está acontecendo na frente ou atrás.

Quando Jamalida de "I Am Rohingya" lembra a perseguição que enfrentou em Myanmar, nossa equipe recriou a memória com animações que foram colocadas nas áreas circundantes da visão do público.

Em uma cena em que Jamalida descreve a fuga dos residentes do vilarejo, apresentamos animações de pessoas que correm ao redor. Nós queríamos incentivar mais interatividade entre os espectadores, liberando-os para mover a câmera ao redor. Isso faz com que o espectador sinta o ato de fugir, além de simplesmente vê-lo na tela.

"Não apenas o quê, mas o porquê"

A originalidade da tecnologia VR já está começando a perder a força. O desafio agora para a indústria de notícias e documentários de VR é envolver mais espectadores, alguns não necessariamente familiarizados com esse meio imersivo. Para fazer isso, devemos nos concentrar nas histórias mais exclusivas que podemos encontrar e contar. Estas são histórias que acreditamos que se alinharão melhor com a nossa equipe, dizendo "não apenas o quê, mas o porquê".

Na VR, ainda precisamos lembrar a importância da narrativa para transmitir questões humanas e globais urgentes. Determinar como fazer isso funcionar na VR sempre será um desafio, mas encontrar técnicas criativas para ajudar as audiências a ir além da visão de 360° e entrar plenamente no coração da história ajudará a transformar a reportagem padrão de 360° em uma experiência que não só ficará com os espectadores, mas irá deixá-los curiosos, abertos e ansiosos para experimentar mais conteúdo desse tipo no futuro.

Zahra Rasool é líder editorial do Contrast VR, o novo estúdio de mídia imersiva da Al Jazeera, onde se concentra na produção de vídeos convincentes de 360°, Realidade Virtual (VR) e Realidade Aumentada (AR). Em 2015, ela fundou seu próprio startup, a Gistory.

Este artigo foi publicado no MediaShift e é reproduzido na IJNet com permissão.

Imagem sob licença CC no Flickr via Games for Change

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