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Dentro dos bastidores da revolução digital no Irã

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Dentro dos bastidores da revolução digital no Irã

Kristin Peixotto e Damian Radcliffe | 03/10/17

Talvez não saiba, mas o Irã está passando por uma rápida transformação digital.

O uso da internet cresceu 21 por cento no ano passado e o país espera lançar a tecnologia móvel 5G em 2020-21. Enquanto isso, com os populares serviços online do YouTube, Facebook, Google e Apple normalmente bloqueados no país, empreendedores estão desenvolvendo com sucesso suas próprias versões no Irã.

Como disse Niki Aghae, consultora criativa em Teerã, o ritmo da mudança tem sido dramático.

"Em questão de quatro anos, temos 22 milhões de usuários móveis ativos no Irã usando aplicativos, usando a internet, navegando pela rede", diz Aghaei. "Há muitas outras coisas que são muito tradicionais no Irã", disse ela. "Mas é incrível o tamanho do mercado [digital] que temos e quantas ideias diferentes vimos implementadas."

Em parte, o que tornou isso possível é o lançamento de uma banda larga móvel melhor e mais rápida.

A primeira rede 3G do país foi lançada pelo fornecedor iraniano de telecomunicações Rightel em 2012. Mas foi só até o final de 2014 que outras empresas puderam lançar serviços 3G ou 4G.

Desde então, o país viu o lançamento de sistemas de pagamento online, serviços similares ao Uber, como Snapp, Tap30 e Carpino, bem como Dunro — um aplicativo iraniano de geolocalização semelhante a Foursquare — e múltiplas oportunidades para compras online. 

"Nós não tínhamos nada disso dois anos atrás", conta Aghaei. "E não vejo outro exemplo no mundo com essa transição tão rápida."

Uma nação de super-usuários

Esses desenvolvimentos digitais muitas vezes são uma surpresa para os não-iranianos.

"O maior equívoco é que as pessoas nem sabem que temos um mundo digital no Irã", explica Aghaei. "Eles dizem, 'Oh, meu Deus, jura? Os iranianos usam Instagram? Existem 20 milhões de usuários no Instagram no Irã? A taxa de engajamento é tripla em comparação com a América do Norte? Uau.'"

Provavelmente, uma das principais razões para este nível de engajamento é a escassez. Conforme observado pelo TechRasa, um site de tecnologia iraniano em língua inglesa, "o Facebook e Twitter estão bloqueados pelo governo no Irã."

Em contraste, o Instagram "é a única plataforma de mídia social popular que não está bloqueada no país". Assim, é uma plataforma que muitos iranianos abraçaram. A atriz iraniana Mahnaz Afshar possui 6,3 milhões de seguidores no Instagram, e uma página de fãs dedicada ao "Game of Thrones" possui mais de 120 mil seguidores.

Com a introdução das redes sociais, o Irã também está começando a notar o poder que os influenciadores digitais podem ter nas decisões do consumidor; eles podem ser ainda mais poderosos no Irã do que em muitos outros mercados.

"A taxa de engajamento em influenciadores é uma loucura", disse Aghaei. "Quero dizer, se você seguir a página no Instagram de Mark Wahlberg, ele tem 7 milhões de seguidores, e muitas de suas postagens quase não atingem 200 mil visualizações. O engajamento não existe porque há tantos canais digitais diferentes aos quais pessoas fora do Irã têm acesso."

Por outro lado, no Irã, ter acesso a uma gama mais limitada de serviços significa que "a maioria dos usuários está focada no Instagram e Telegram como suas plataformas de comunicação."

Dito isso, a tendência do influenciador pode não durar, sugere Aghaei, devido à superexposição. "Influenciadores no Irã no ano passado não estavam realmente ganhando dinheiro", disse ela. "Eles estavam apenas fazendo isso pelo amor a sua arte, fossem eles comediantes, blogueiros, Instagrammers, Viners, fotógrafos... Mas porque as empresas estão usando influenciadores, os influenciadores estão perdendo sua marca [pessoal] e seu engajamento."

Por enquanto, pelo menos, os influenciadores continuam a ser figuras digitais dominantes e poderosas. Aghaei atribui a rápida aceitação e uso do aplicativo de mensagens Telegram, em parte, a esse grupo.

O aplicativo agora possui mais de 40 milhões de usuários no país e é uma plataforma comum para notícias e informações sobre negócios, celebridades e entretenimento.

"Você tem canais, tem grupos e tem bots", explicou Aghaei. "Os canais são lugares onde você tem centenas de milhares de membros que vêm e leem suas postagens."

Caminhando para o futuro

"Três anos atrás, você não teria um outdoor falando sobre um site, promovendo um site, promovendo qualquer coisa digital. Agora, eu diria que todas as empresas tradicionais têm sites próprios, todas têm suas páginas no Instagram em seus outdoors ", disse Aghaei.

"Então, as pessoas estão abrindo os olhos e estão interessadas em entrar no mundo digital", ela acrescenta. "Quero dizer, tudo está sendo feito online.

Um motivo chave é a conveniência. "Os iranianos gostam de simplicidade", diz ela, e muitas ferramentas online podem facilitar a vida deles.

Um exemplo é o banco online. "As pessoas passam três a quatro horas por dia no trânsito em Teerã", diz Aghaei. "A facilidade de fazer tudo online é que você não precisa gastar mais uma meia hora ou uma hora no tráfego para fazer seus pagamentos."

É uma experiência que também se espalhou por outros setores da vida, incluindo a encomenda de comida caseira através da inauguração do Maman Paz.

"Todo mundo está encontrando uma oportunidade de ganhar dinheiro e de alguma forma estar ativo online", diz Aghaei.

A revolução digital do Irã, ao que parece, apenas começou.

Imagem sob licença CC no Flickr via Esther Vargas

Kristin Peixotto é formada pela faculdade de jornalismo e comunicação da Universidade de Oregon. Ela é estrategista com foco em engajar o público através do poder da tecnologia. Siga-a no Twitter: @kpeixotto27

Damian Radcliffe é professor de jornalismo na Universidade de Oregon, bolsista no Centro Tow para Jornalismo Digital na Universidade Columbia e pesquisador honorário da Universidad Cardiff. Siga-o no Twitter: @damianradcliffe

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