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Como treinamento estimulou jornalismo investigativo na Jamaica

Como treinamento estimulou jornalismo investigativo na Jamaica

Farahnaz Mohammed | 15/10/17

A menos de duas horas do sul da Flórida e a passos de Cuba, a Jamaica sempre foi ofuscada por seus vizinhos. No entanto, embora tenha sido marcada como um lugar sem problemas, a ilha tem uma cultura política profundamente partidária, um setor público conhecido pela corrupção (com uma recente série jornalística de um mês sobre o assunto) e problemas sociais que passam despercebidos.

A Jamaica desfruta de um dos ambientes de mídia mais seguros do mundo, mas falta uma imprensa robusta para tirar proveito disso. Para abordar esse problema, a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID), a Ação Nacional de Integridade e os Repórteres Globais para o Caribe reuniram 27 indivíduos de comunidades da Jamaica sem treinamento formal em jornalismo e forneceram habilidades e orientações para cobrir as histórias que a mídia tradicional perde.

A jornalista Kate Chappell foi nomeada coordenadora do programa e falou sobre os desafios da orquestrar várias investigações simultâneas, particularmente quando nenhum dos repórteres já tinha feito isso antes.

Kate diz que os participantes escolheram suas pautas desde o início. Eles foram instruídos a enviar ideias de onde moravam e as histórias foram escolhidas com base na sua capacidade de realização.

Os participantes foram submetidos a um treinamento intensivo de fim de semana e ganharam um mentor para trabalhar nos próximos três meses para produzir uma matéria completa.

O programa piloto foi um sucesso: produziu 10 matérias veiculadas na televisão, rádio e imprensa. Uma matéria focou na falta de treinamento policial adequado para lidar com a violência doméstica; outra no estado de destruição das estradas rurais (que os residentes culpam por dificultar o tratamento de uma criança de 12 anos depois de um ataque fatal de asma). Outras abordaram as ramificações da dragagem do porto da capital para pescadores locais e como uma cultura de medo evita que alguns moradores da cidade costeira de Montego Bay denunciem atividades criminosas.

"Foi uma das coisas mais difíceis que já fiz", disse Kate. "Mas também a mais gratificante."

Algo que Kate disse que reavaliaria é o quanto foi esperado dos formandos, dado o período de tempo.

"A menos que você tenha feito isso, não sabe quanto esforço leva", diz Kate. "Precisa ser extremamente diligente; não pode simplesmente ligar uma vez se não conseguir uma resposta, precisa estar no telefone três vezes por dia... é um trabalho em tempo integral."

Os participantes, que tinham entre 20 e 40 anos, estavam equilibrando os rigores do programa e a produção da matéria com suas vidas normais. Alguns inevitavelmente tiveram dificuldades, e algumas matérias foram realizadas por um ou dois membros da equipe especialmente dedicados. Kate indicou que isso teria que mudar se o programa fosse relançado.

"[Os participantes] têm seus empregos durante o dia, têm suas família [e] estão tentando dar conta de tudo. Não acho que percebemos o quão irrealista estávamos sendo."

No entanto, a intensidade do trabalho não diminuiu o entusiasmo final dos participantes pelos resultados, mostrados na cerimônia de encerramento do programa.

"Esperávamos a presença de 80 pessoas", disse Chappell. "Duzentos apareceram."

Investindo no Quarto Estado 

As histórias descobertas por membros ansiosos da comunidade em apenas três meses sugerem que o jornalismo investigativo tem um lugar na Jamaica. Ainda assim, Kate vê obstáculos significativos para promover uma cultura disposta a financiar os custos das reportagens investigativas.

"Falta dinheiro, faltam recursos", disse Kate. "E há uma falta geral de compreensão da importância disso."

A Jamaica foi vítima de uma tendência da indústria global: o jornalismo investigativo é um empreendimento caro em um negócio ansioso para reduzir os custos e muitas vezes é uma das primeiras coisas a serem cortadas.

Enquanto isso faz sentido financeiramente, afeta não apenas jornalistas, mas as sociedades para as quais trabalham.

"As histórias que levam mais esforço -- as que geram mudança e expõem corrupção -- levam muito tempo", diz Kate. "É preciso tempo para responsabilizar as pessoas."

Farahnaz Mohammed é jornalista e ex-bolsista Knight-VICE

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