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Como falar com jornalistas sobre segurança digital

Como falar com jornalistas sobre segurança digital

Javier Garza | 09/10/14

O workshop tinha terminado, mas os participantes ficaram grudados em seus lugares junto a seus computadores portáteis. Por mais alguns minutos, ninguém queria sair da sala. "Você assustou todo mundo", um dos participantes me disse. "Agora todos nós estamos mudando nossas configurações de privacidade no Facebook." 

Meus colegas treinadores e eu tinhamos acabado de terminar um workshop de dois dias sobre segurança digital e móvel para jornalistas e blogueiros com 16 jornalistas da Cidade do México, Querétaro e Puebla, e os participantes todos pareciam ter reconhecido a necessidade de adotar medidas de segurança em sua navegação, mensagens, e-mail e atividades de mídia social. 

Depois de liderar várias dessas oficinas como parte da minha bolsa Knight do ICFJ, eu percebi que muitos jornalistas começam um pouco céticos sobre a necessidade de segurança digital. Nossas pesquisas pré-curso geralmente mostram que eles estão fazendo pouco para proteger suas informações e seus dispositivos. 

Mas, de repente, chegam a uma falha particular, que a princípio faz com que se preocupem e depois os faz agir. Eles se tornam conscientes de que há pessoas que poderiam tentar prejudicá-los ou comprometer o seu trabalho, sabendo de suas atividades. 

Algumas semanas atrás, durante um seminário semelhante em Cidade Juarez, no norte do México, mostramos a 19 jornalistas locais como testar a força de suas senhas usando um site que pode adivinhar quanto tempo seria necessário para um computador desvendar uma senha. Eles compartilharam seus resultados, a maioria na faixa de 20 anos para um bilhão de anos, com a classe. Quando um deles disse "30 segundos", a sala explodiu em gargalhadas, mas a importância de manter uma boa segurança digital não foi ignorada por ninguém. 

As oficinas têm focado na forma como os jornalistas podem desenvolver planos de proteção pessoal para as suas comunicações digitais (e-mail, telefone e mensagens), navegação na Web, armazenamento de dados e utilização de redes sociais. Nós ajudamos a fazer avaliações de riscos para avaliar qual tipo de ataque são mais suscetíveis a sofrer ou que tipo de agressor é mais provável que vá atacá-los. 

Ao falar com jornalistas sobre segurança digital, aqui estão algumas abordagens importantes que tornam nossas oficinas mais eficazes. Estas abordagens também são úteis para redações e jornalistas experientes que querem convencer  outros a adotar melhores medidas de segurança: 

  • Não diga a cada jornalista quais são seus riscos porque cada caso é diferente. É melhor mostrar como realizar uma avaliação de risco pessoal para detectar possíveis ameaças, vulnerabilidades e pontos fortes e determinar se as ferramentas que eles usam atualmente não são seguras. 
  • Mostre como adequar as suas precauções para não perder tempo se protegendo contra ameaças que não enfrentam ou ignorar os perigos com maior probabilidade de acontecer.
  • Apresente uma grande variedade de ferramentas de segurança digital em diversas áreas (navegação na Web, serviços de e-mail e de mensagens, criptografia, firewalls e anti-vírus, armazenamento seguro de dados) para que possam escolher as que melhor lhes convêm. 
  • Seja paranóico, mas não muito paranóico. Algumas medidas de segurança são para uso geral e permanente, mas outras são para casos específicos, para serem usadas com moderação, então aprenda quando usá-las. Em outras palavras, você provavelmente não tem que usar Hushmail (um serviço de e-mail privado) para entrar em contato com seus pais. 
  • Use bom senso. Ferramentas de segurança não vão funcionar se os jornalistas são descuidados na maneira de mover ou trocar informações. Realmente quer postar informações pessoais nas redes sociais para que todos possam ver? Ou você ajusta suas configurações de privacidade? Se você recebe um documento confidencial, deve compartilhá-lo com seu editor através de uma conta de e-mail que pode ser hackeada? E se você usar e-mail criptografado, como se certificar que seu editor não o comprometa?
  • Fale sobre segurança digital e incentive os participantes a compartilhar as ferramentas com os colegas para que eles também adotem hábitos de segurança. Não adianta se um repórter compartilha material sensível sobre meios seguros com outro repórter, se o destinatário em seguida, lida com o material a céu aberto. 

Os cursos são baseados no Manual de Segurança Digital e Móvel para Jornalistas e Blogueiros (em espanhol) escrito pelo ex-bolsista Knight do ICFJ, Jorge Luis Sierra, que agora dirige o programa. O manual, que está sendo traduzido para o inglês e árabe, tornou-se um guia popular para jornalistas que procuram adicionar camadas de proteção para o seu trabalho. 

Os principais parceiros no desenvolvimento destas oficinas foram redes de jornalistas locais em várias cidades mexicanas, como a Red de Periodistas de JuárezPeriodistas de a Pie na Cidade do México e o Colegio de Periodistas de Chiapas, onde realizamos um curso no final de setembro. Uma característica interessante é que cada uma dessas redes tem entre elas um instrutor treinado em um seminário patrocinado pela Freedom House e ICFJ com o objetivo de "incorporar" um instrutor qualificado entre os grupos de jornalistas locais. E essas redes começaram a compartilhar seus conhecimentos entre si. Por exemplo, um treinador de Chiapas participou da oficina na Cidade Juárez e dois instrutores do grupo Periodistas de a Pie vão realizar um curso para jornalistas na cidade de Cuernavaca. 

Em algumas das nossas oficinas em universidades na Cidade do México, como a Universidad Iberoamericana no Centro de Pesquisa Econômica e Ensino (CIDE), também tivemos o apoio da SocialTic, uma organização que promove o uso da tecnologia em iniciativas sociais. Um de seus fundadores, Juan Manuel Casanueva, é um novo bolsisda Knight do ICFJ que está desenvolvendo laboratórios de participação cívica no México. 

À medida que expandimos a rede, o nosso objetivo é ampliar a conscientização sobre segurança digital entre os jornalistas mexicanos para que não sejam pegos de surpresa na próxima vez que alguém quiser bisbilhotar.

O conteúdo de inovação de mídia global relacionado a projetos e parceiros do programa Knight Fellowships na IJNet é apoiado pela John S. and James L. Knight Foundation e editado por Jennifer Dorroh.

Foto cortesia de Perspecsys Photos sob licença Creative Commons

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